Uma coisa que não podemos negar é que a Netflix está investindo cada vez mais em suas produções e já está com um pé no Oscar. A estratégia que eles usam é a de lançar seus maiores filmes no final de ano para ter mais chances de serem indicados nas premiações,  deu super certo como filme Roma

Antes tarde do que nunca, vamos falar sobre um dos últimos lançamentos da Netflix: o longa Meu Nome é Dolemite, dirigido por Craig Brewer, chegou na plataforma digital em outubro e marcou a volta do ator Eddie Murphy em filmes que não são infantis. 

Meu Nome é Dolemite é uma cinebiografia do comediante, músico, ator, cantor e produtor de filmes Rudy Ray Moore. Ele ficou famoso na comunidade negra nos EUA durante a década de 70 e foi um dos primeiros a fazer filmes do Blaxploitation (clique aqui para ver a definição de Blaxploitation). O gênero norte-americano trazia longas produzidos e atuados por negros com temáticas voltadas ao negro também.

Rudy Ray Moore trabalhava em uma loja de discos e sonhava em entrar para o mundo artístico, por isso vivia tentando descobrir novos talentos. Sua carreira deu certo quando ele criou o personagem de um cafetão muito boca suja chamado Dolemite e faz um filme para ele.  O filme original estreou em 1975 e fez bastante sucesso dentro do gênero. 

Rudy teve a ideia de produzir um filme para o público se identificar e no trailer (veja aqui), a personagem Lady Reed diz que nunca viu ninguém parecida com ela no cinema. E por falar em identificação, Eddie Murphy que interpreta o personagem Rudy/Dolemite teve afinidade com o papel porque no início de sua carreira ele fazia stand ups cheios de palavrões, igual a Dolemite.

Além de Eddie Murphy, o elenco conta com o retorno de Wesley Snipes depois de ter sua carreira afundada por ter sido preso por sonegação de impostos, com Da’Vine Joy Randolph (A Última Ressaca do Ano), Chris Rock (Gente Grande), Mike Epps (Se Beber, Não Case!) e o rapper Snoop Dogg.

A gente já viu que as críticas para Coringa, Era Uma Vez em Hollywood e O Irlandês apontam que eles estarão na corrida para o Oscar, mas a Netflix ainda tem esperanças para ganhar um Globo de Ouro com Meu Nome é Dolemite por atuação, roteiro ou pelo figurino. Ah, temos textos sobre esses filmes aqui também, dá uma olhada! 

O figurino foi assinado por Ruth E. Carter e nada mais justo porque ela é negra e realmente entende do assunto do filme. Lembrando que ela ganhou o  Oscar de Melhor Figurino neste ano de 2019 por Pantera Negra.

A figurinista tem uma lista extensa de trabalhos com temáticas que valorizam o negro e não poderia se encaixar melhor para o trabalho. Se você ainda não leu nosso post sobre Pantera Negra, vale a pena dar uma olhada porque tem muita informação interessante.

Ruth viu o filme como uma oportunidade de ajudar Eddie Murphy a realizar seu sonho de atuar no papel e também de mostrar um lado diferente dos anos 70, fazendo um figurino de uma época em que a moda era visualmente explosiva com a influência dos movimentos hippie e urbano, misturando várias tendências ao mesmo tempo. 

Seu maior desafio foi mostrar todos os personagens como pessoas reais, não esquecendo dos figurantes, para que o público olhe individualmente para cada um e consiga reparar que eles se encaixam na realidade, não apenas na ficção. 

A figurinista começou assistindo os quatro filmes já lançados de Dolemite para ter uma base de quais roupas o personagem já usou. E como ela queria fazer um figurino bem realista, ela assistiu aos filmes que inspiraram Rudy Ray Moore a criar Dolemite: Super Fly (1972) e The Mack (1973), ambos do Blaxploitation com personagens que se destacavam por sua ambição.

Foram seis semanas de pré-produção e para os personagens principais, ela pesquisou em revistas antigas como a  Ebony e a Jet. Sua equipe procurou roupas vintages usadas e outras 150 peças foram feitas do zero. "Um alfaiate leva 6 semanas para fazer um terno e nós tínhamos 6 semanas para ter tudo pronto para o filme. Nós estávamos correndo o tempo todo. Gravamos em 10 semanas, então todo dia nós precisavamos ajustar uma peça diferente e eu tinha que fazer as provas de roupa direto no camarim", conta ao site EW.

O figurino de Lady Reed (interpretada por Da’Vine Joy Randolph) foi 100% feito pela equipe e o que a figurinista mais queria era realçar as curvas da atriz: "Quando você olha para ela, você vê alguém que está com tudo. Ela usa chapéu masculino de um jeito feminino. Isso me inspirou a mostrar que Da'Vine não estava usando caftans porque ela é uma mulher grande (de peso), ela é uma mulher grande (de personalidade e força) e está com tudo!". Caftans são aquelas túnicas tradicionais do oriente médio que são abotoadas na frente.

A figurinista conta ao Gold Derby que quando precisou perguntar a Eddy Murphy o que ele tinha em mente para os personagens (Rudy Ray Moore e Dolemite), ele sempre conseguia responder com dicas que eram possíveis de reproduzir, não eram ideias mirabolantes. Para ela era fácil de distinguir os personagens porque Rudy era muito mais simples e não tinha uma preocupação estética, enquanto Dolemite era totalmente criado para ser diferente e chamar atenção com suas roupas sempre combinando com o chapéu. 

Inclusive, suas peças favoritas são as que Dolemite usa com tons de rosa: "Eu acho que minha peça favorita é o terno rosa com o chapéu rosa. Eu nunca me cansei de olhar para essas peças. É original e mostra a moda dos anos 70, mas também tem um pouco da moda atual porque eu acrescentei o veludo. [...] Tem também a roupa branca com listras rosas na frente, não tem estampas na parte de trás e tem veludo nas mangas".  

O filme mostra 75 histórias diferentes então são 75 combinações diferentes para os personagens de Rudy e Dolemite, foram usados 47 rolos de tecidos só para fazer as roupas de Eddie Murphy e ele fez 34 provas de roupa no total. 

Para Dolemite a figurinista quis peças feitas do zero, por isso criaram sapatos que combinasse com a textura de suas calças. Ela queria que ele fosse único: "Você não pode encontrar as roupas de Rudy Ray Moore em nenhum lugar", disse Carter. 

A figurinista encontrou uma fábrica de tecidos em Los Angeles chamada International Silks & Woolens, a qual deu para ela tecidos dos anos 70 que nunca foram usados ou vendidos. Os tecidos foram pintados e depois passaram pelas mãos de várias costureiras de LA até chegar no resultado final do figurino de Eddie Murphy. Uau!!!

Outro desafio foi produzir sapatos para o ator porque a plataforma não era confortável e a figurinista teve que fazer um modelo especial: "Nós gravamos no verão e estava fazendo 37 graus. Ele estava usando poliéster e sapatos de plataforma, então você sabe que os pés dele estavam desconfortáveis. Nós não estamos nos anos 20, quando nós conseguimos usar grandes plataformas de madeira o dia todo. Eu estava constantemente tentando reinventar a plataforma para que ele pudesse atuar. Ele tinha que ser engraçado e tinha que se mover e tudo começa pelo seus pés. No fim, eu fiz um sapato de plataforma a partir de um tênis da Adidas. Quando ele provou, ele disse: "Agora você conseguiu. Eu posso fazer qualquer coisa usando isso."”, conta Ruth ao site da Elle.  

Uma curiosidade é que o diretor Brewer a convidou para seu próximo filme, Um Príncipe em Nova York 2, também com Eddie Murphy no papel principal. A figurinista já trabalhou várias vezes com o ator e eles se dão super bem, foram seis filmes desde 2001 e ela diz que ele merece muito uma indicação ao Oscar. 

O filme está disponível na Netflix e você pode assistir para dar seu palpite de quem serão os indicados ao Oscar. Será que o figurino de Meu Nome é Dolemite vai ser incluído ou vai ficar para as outras premiações?