Depois de grandes lançamentos como Era Uma Vez Em Hollywood e Coringa, chegou o tão aguardado O Irlandês. Há um ano as fotos de set do filme começaram a ser liberadas por sites de notícia e já dava para ver os detalhes do figurino, e claro, nós não poderíamos deixar de falar desse sucesso. 

 O longa é baseado no livro O Irlandês: Os Crimes de Frank Sheeran a Serviço da Máfia, de Charles Brandt, e mostra como funciona a máfia através da história de Frank Sheeran (Robert De Niro) como suspeito de matar o sindicalista Jimmy Hoffa (Al Pacino).  

 A família de Frank era de origem irlandesa, por isso seu apelido é o irlandês. Ele foi chamado para se juntar a criminosa família Bufalino, depois de voltar do combate da guerra, e se tornou assassino de aluguel, matando os inimigos da família. 

 O assassino acabou conhecendo Jimmy Hoffa e se tornou seu guarda-costas e confidente, mas a história acabou em traição. Sheeran contou ao seu advogado Charles Brandt, o escritor do livro, que atraiu Hoffa para uma casa em Detroit em 1975, deu dois tiros em sua cabeça e cremou o corpo, por isso ele não teria sido encontrado. Mas mesmo com a confissão, nenhuma prova concreta foi levantada.

 A direção de Martin Scorsese é o principal ponto positivo porque ele é especialista em filmes de gângster, como seus trabalhos em Goodfellas, Os Infiltrados e vários outros, mas O Irlandês é o primeiro filme do gênero que ele faz depois de mais de uma década. Muito tempo também se passou desde que o diretor trabalhou com Robert De Niro em Taxi Driver e The Audition.  

  O elenco se completa com Anna Paquin (True Blood), Kathrine Narducci (Família Soprano), Bobby Cannavale (Homem-Formiga), Jesse Plemons (Breaking Bad), Harvey Keitel (Ele também já trabalhou com Scorsese em Taxi Driver) e o tão esperado Joe Pesci (Os Bons Companheiros). 

 Já deu para perceber que o diretor queria reunir seus atores queridinhos, e que atores hein?! Acontece que para trazer Joe Pesci não foi tão fácil assim. O ator negou várias vezes porque já estava aposentado, mas abriu uma exceção atuando mais uma vez com Robert De Niro - o novo filme é o sétimo dos dois juntos.  

 O filme já estava sendo planejado desde 2008, mas sem orçamento suficiente para as ideias caras de Scorsese, o projeto foi se arrastando até 2016. Depois do diretor produzir outros filmes ele conseguiu fechar um financiamento com a Paramount e a produtora mexicana Fábrica de Cine. 

 As duas abandonaram o projeto, mas graças a Netflix, O Irlandês foi gravado e hoje é o filme mais caro do diretor, com um total de 175 milhões de dólares gastos. E mais, o filme é o maior dele também com 3 horas e 29 minutos, teve 300 cenas (que em média são apenas 50) e foi gravado em 106 dias, ou seja, 3 meses de filmagem! 

 Scorsese deixou o filme bem diferente dos seus outros de gângster e como a história dos personagens começa com eles se conhecendo com 30 anos, ele decidiu fazer um flashback. Para mostrar De Niro mais novo, foi preciso usar tecnologias de rejuvenescimento digital, como a que foi usada em Brad Pitt no filme O Curioso Caso de Benjamin Button, feitas pela empresa Industrial Light and Magic. Agora já dá pra entender o porquê do filme ser tão caro né?  

 Robert De Niro foi escolhido para o papel de Frank Sheeran mesmo sendo mais baixo do que Frank na vida real, que tinha em torno de 1,93 metros. Esse foi o primeiro desafio da figurinista Sandy Powell, queridinha das premiações, que colocou o ator em sapatos de plataforma para igualar sua altura. Como o projeto do filme era extenso, ela convidou Christopher Peterson, seu assistente de figurino de longa data, para ser o co-figurinista.

 Os dois figurinistas gostam de trabalhar juntos porque são amigos há bastante tempo e nesse projeto já sabiam as expectativas do diretor porque já trabalharam com Scorsese em Os Infiltrados e O Lobo de Wall Street. "Nós podemos rir e eu acho que esse equilíbrio é bom. Quando tem coisas que eu odeio, Chris não pensa assim e vice versa", disse Powell. 

 Sandy Powell já apareceu aqui no blog e se você ainda não leu nossos textos de A Favorita e O Retorno de Mary Poppins clica nos links que tem bastante informação legal! 

  Como Sandy Powell já tinha trabalhado com Martin Scorsese ela sabia que ele pede uma pesquisa profunda sobre o tema a ser tratado no filme, para se ter uma idéia nos filmes de Scorsese existe um departamento só de pesquisa que é liderado por Marianne Bower. Então além do roteiro, a figurinista leu também o livro para conseguir o máximo de informações possíveis sobre os personagens.

 "Uma das coisas que ele (o diretor) disse na primeira reunião foi que nós não estávamos fazendo o mesmo tipo de gangster de Os Bons Companheiros (1990) e Cassino (1995). Nós estávamos fazendo uma versão mais básica. Digo, tem algumas partes óbvias que vem da máfia, mas metade da roupa que eles usam é do jeito que eles se vestiam normalmente", disse Powell e o co-figurinista Christopher completa dizendo que mesmo com o estilo de vida cheio de dinheiro da máfia, os personagens ainda se vestem relembrando suas raízes (roupas mais simples). Em O Irlandês o diretor queria que os personagens fossem discretos para não se destacar na multidão e sim, passar despercebidos. 

 Por volta dos anos de 1970, época do filme, o estilo dos gangsteres era bem diferente dos anos anteriores. 

 Em 1920 eles usavam o clássico terno de três peças: paletó, colete e calça. Pra completar eles também usavam suspensório, pino de colar (presos no colarinho para alinhar a gravata), lenço no bolso (não só para se limpar, como para oferecer para as mulheres que choravam em perigo) e um chapéu fedora. 

 Mas não eram todos eles que se vestiam assim, uns preferiam ser mais discretos e o estilo foi mudando com o tempo. Como no filme, os personagens masculinos já seguem um estilo muito mais comum, com tecidos lisos e cores neutras.

  No contexto de O Irlandês, o sapato bicolor não era mais usado e optaram por sapatos de couro bem polidos. Os personagens aparecem em dois estilos bem diferentes: social (paletó, casaco e grampo na gravata) e casual (Frank e Jimmy usam calças cáqui com camisa de manga curta ou camisa polo). Robert De Niro também em outras cenas que também usa roupas bem comuns, provavelmente em cenas do cotidiano de Frank sem compromissos da máfia, com direito a jaquetas de couro e estampa xadrez.

 O detalhe que não podia faltar como referência aos gangsteres dos anos de 1920 é o chapéu fedora. 

Lawrence Smith e Robert De Niro no set de filmagens do filme. Foto: IMDB.

 Como os atores são mais velhos, quase com 70 anos, e tem que usar recursos de rejuvenescimento digital, o desafio de figurino era justamente deixar eles com aparência de mais jovens. A sorte dos figurinistas é que, segundo eles, os ternos da época do filme tem uma modelagem que ajuda a esconder o formato do corpo, o restante seria com eles, sabendo se comportar como se fossem mais novos pelo jeito de andar. 

 O segundo desafio de um filme tão extenso foi a quantidade de cenas e assim, a quantidade de pessoas no elenco.  A dupla teve que vestir 160 personagens (que aparecem falando nas cenas) e mais 6500 figurantes e para dar tudo certo foi preciso organização e planejamento. "Você precisa de muita pesquisa, trabalho duro e precisa fazer o trabalho. Basicamente tem que dividir seu cérebro em 5 décadas diferentes (já que o filme vai e volta no tempo de vida de Frank entre 1949-2000), e fazer tudo como se tivesse 3 ou 4 filmes em um só. Você filma mais de uma década em um dia e é quando você precisa saber o que está fazendo.

  Com tantas décadas, os detalhes como a silhueta, o corte do terno, das gravatas e das lapelas mudam várias vezes. O figurinista Christopher conta um pouco sobre essas mudanças: "As lapelas eram largas em meados dos anos 50 e ficaram mais estreitas nos anos 60 e mais largas novamente nos anos 70. As gravatas eram finas nos anos 60 e mais largas nos anos 70, elas eram "amarradas" (com o nó elas ficavam curtas) e depois foram ficando na altura do cinto das calças, dependendo do período. As gravatas dos anos 50 vieram do estilo dos anos 40, mais selvagens e ousadas. Depois da viagem do presidente Kennedy a Europa, o terno mais justo ao corpo se tornou popular e nos anos 70, as gravatas ficaram parecidas com um guardanapo de poliéster enrolado em seu pescoço”. 

  O figurinista conta que eles procuraram por inúmeras gravatas e que foi um processo difícil de recriar as gravatas e as golas do período, passando a ser uma caça ao tesouro. A dedo eles iam escolhendo o que ia para cada personagem e cada período tinha cores específicas: anos 50 - azul e cinza; anos 60 - verde, mostarda e marrom; anos 70- marrom e vinho.  

 Frank Sheeran e Jimmy Hoffa são personagens que cresceram pobres e seus ternos eram comprados em lugares mais baratos. Para o filme, a equipe de figurino fez os ternos e só para Robert De Niro, foram 102 trocas de roupa e para provar tudo foram entre 10 a 15 provas de 4 horas cada. Uau!!!

 Powell disse que durante as provas de roupa, com pilhas enormes de peça, eles optaram por deixar os atores provarem e escolher o que ficava melhor neles porque para ela era algo natural que eles mesmos visse o que ficava bom. Uma curiosidade que ela conta é que no contrato de Robert De Niro, ele estipulou que ficaria com todo seu figurino depois das filmagens.

  Os figurinistas tiveram uma ajuda especial da família de Frank Sheeran que mostrou álbuns de fotos de sua infância, dos dias como soldado na Segunda Guerra Mundial e seus últimos dias de vida. Uma curiosidade é que sua neta Brittany Kate Griffin até chegou a trabalhar como assistente de figurino junto com eles no filme, mas só por um tempo. "Nós tivemos um acesso extraordinário pela cooperação da família dele e eles nos deram um anel e conseguimos recriar um relógio de ouro Tissot”, disse Peterson. 

  Hoffa, interpretado por Al Pacino, sempre estava impecável e o figurinista Christopher conta que até seu corte de cabelo era certinho lembrando bem a postura militar do personagem. Já o personagem Russel Bufalino, interpretado por Joe Pesci, tem um estilo mais sofisticado devido a sua idade, usando ternos dos anos 60 e 70. 

 A personagem feminina de destaque é Carrie Bufalino, interpretada por Kathrine Narducci, a mulher de Russel, chefe da família da máfia. A atriz que já fez outros filme com Robert De Niro, como Desafio no Bronx, aparece sempre bem elegante. 

 Para montar o look dos anos 70, ela usa o cabelo curtinho com ondas e na vida luxuosa que levava, a simplicidade passava longe, por isso a personagem usa muitas estampas, cores chamativas, a cintura bem marcada com cintos ou pela própria peça e colares mais extravagantes. 

 Por ser da Netflix, o filme precisou ser exibido em alguns cinemas para se enquadrar nos critérios do Oscar e agora já pode ser indicado na premiação. Os críticos já comentam que o filme é tão bom que pode concorrer ao lado de Era Uma Vez em Hollywood e Coringa. Obs: Quer descobrir qual é o seu favorito? Tem texto de cada um aqui no blog e você pode ver mais sobre o figurino deles aqui

 Depois desse sucesso, Scorsese pegou o embalo para um próximo longa também baseado em um livro. Dessa vez, o filme Killers of the Flower Moon (ainda não traduzido) não é de gangsteres, mas tem um roteiro bem misterioso sobre índios da tribo Osage que eram conhecidos por sua riqueza e foram assassinados. A série de assassinatos levou a criação do FBI nos EUA. 

 No novo drama de Scorsese, uma figurinha se repete: Robert de Niro não para e se junta a  Leonardo DiCaprio. As filmagens começam em março de 2020, mas já sabemos também que a dupla de figurinistas continua com o diretor em mais uma aventura.