Dessa vez vamos falar sobre o filme em um texto curto, mas cheio de informações legais e que não sejam cansativas para você voltar no blog e saber cada vez mais sobre o mundo maravilhoso do figurino.

Depois de muita expectativa em cima do novo longa de Tarantino sobre o assassinato de Sharon Tate, o filme foi lançado e muito bem elogiado! A primeira exibição de Era Uma Vez… Em Hollywood teve sete minutos de aplausos no Festival de Cannes e ainda levou a melhor atuação canina (é isso mesmo!) com o prêmio Palm Dog. Brandy, a cachorrinha pitbull, faz parte do elenco em cenas com Brad Pitt e levou uma coleira como prêmio. 

Falando em Tarantino já podemos pensar em uma mistura de ironia, humor e violência. Mas o que todos esperavam era um roteiro totalmente focado num dos casos que mais chocou a mídia no final dos anos 60: o fim violento da atriz norte-americana Sharon Tate. Tarantino preferiu dar foco na cidade de Los Angeles em 1969,  ou seja: o mais importante não era contar o crime, e sim, fazer o retrato da época ao mostrar as mudanças que aconteceram no período. 

O filme mistura duas realidades paralelas: a de Sharon (Margot Robbie), uma atriz que estava grávida de oito meses; e o declínio da carreira de Rick Dalton (Leonardo DiCaprio), o astro de um programa televisivo de faroeste, ao lado de Cliff Booth (Brad Pitt), seu dublê de longa data.

A história de Rick entra no filme para ilustrar o contexto entre os anos de 1960 e 1970, quando o cinema estava passando por uma transformação onde as grandes produções de estúdios maiores estavam perdendo espaço para filmes autorais. Foi nessa época que alguns diretores que hoje já são super conhecidos começaram suas carreiras: Martin Scorsese (O Lobo de Wall Street), Francis Ford Coppola (O Poderoso Chefão), Steven Spielberg (E.T. O Extraterrestre), George Lucas (Star Wars), etc. 

Do outro lado, o ato brutal contra Sharon é o fim do movimento “paz e amor” dos hippies, que eram conhecidos por sua tranquilidade, mas foram marcados pelos crimes cometidos pela seita da Família Manson. 

Charles Manson na vida real e no longa 

Sharon fez um penteado com tranças para o Festival de Cannes em 1968 e Margot Robbie a homenageou no mesmo evento de 2019.

Sharon ao lado de Roman Polaski, diretor com quem era casada.

A brutalidade foi tão grande que a história ficou conhecida pelo mundo todo e para você que nunca ouviu falar, segue um breve resumo: Charles Manson foi preso várias vezes (por estupro, tráfico de drogas, assalto, etc), mas em 1966 foi solto e reuniu seguidores que eram capazes de tudo por ele, porque era como se ele fosse um guru. A primeira vítima seria o produtor musical Terry Melcher, simplesmente porque Charles queria ser cantor e nenhuma gravadora quis fechar contrato com ele. O que os membros da seita não esperavam é que ele tinha se mudado e a nova moradora da casa era Sharon, que nesse dia estava com mais 4 amigos e foram todos mortos a facadas. Como se não fosse bastante, depois de um mês outras duas pessoas foram mortas ainda em Los Angeles, o casal Labianca, e por isso essa série de crimes ficou conhecida como caso Tate-Labianca.

Sharon estava vivendo o auge de sua carreira como atriz e estava grávida de oito meses e meio. Ela era casada com o diretor Roman Polanski, que nesse dia estava viajando e deixou a esposa com os amigos que iriam cuidar dela. Roman já fez sucesso como diretor (um de seus filmes mais famosos é O Pianista), mas depois de ter sido acusado de estupro de uma garota de 13 anos em 1977 e sentenciado como culpado, ele acabou sendo expulso da instituição organizadora do Oscar em 2018 e deixou os EUA por ter sido condenado pelo caso. 

O lado bom é que o filme não vai ficar só na carnificina e na violência, como já é de costume do diretor. E graças a equipe técnica, muitos pontos podem ser destacados como o roteiro com referências que são fáceis de identificar (como uma “imitação” de Bruce Lee em uma das cenas de luta), um elenco com atuações impecáveis (além dos que já foram citados também tem Al Pacino) e o que realmente interessa pra gente: o figurino

A década de 1960 começou com a moda mais conservadora até que nos seus últimos anos foi marcada pelos movimentos feminino e hippie. Esse último foi o que mudou o estilo da época, ainda mais com o festival de Woodstock. Se você olhar o trailer vai conseguir identificar peças básicas de um guarda-roupa anos 60: jeans, estampas chamativas, minissaia e as “go go boots” (bota feminina com comprimento próximo ao joelho). 

A figurinista Arianne Phillips já tem uma carreira extensa e é nada mais, nada menos do que a stylist da Madonna! Só por essa parte, o trabalho dela já é super conhecido e em apenas uma turnê da cantora ela reuniu várias grifes (como Moschino, Miu Miu e Gucci). A parceria com a Gucci foi pra frente e ela usou a marca para vestir os modelos de uma série de vídeos para a Vogue, chamada O Mito de Orfeu e Eurídice, dirigido por Gia Coppola (neta do diretor Francis Ford Coppola). Você pode ver esses vídeos aqui

Voltando para sua experiência no cinema, a figurinista foi indicada ao Oscar duas vezes: uma por W.E.: O Romance do Século (2011) e Johnny and June (2005). Outro filme que a tornou ainda mais renomada foi Animais Noturnos, dirigido por Tom Ford (que também é estilista, tem uma marca de beleza e já foi diretor criativo da Gucci).

Já deu para perceber que de figurino ela entende muito bem e os personagens de Era Uma Vez em...Hollywood estavam em boas mãos! A produtora Shannon McIntosh comentou sobre a escolha de Arianne para entrar na equipe: "Esse não era um projeto pequeno para assumir e nós tivemos que procurar pela figurinista certa que conhecesse o período assim como Tarantino. Arianne veio com referências incríveis para Quentin, os quadros, a pesquisa [...] Era evidente desde a primeira reunião que ela seria a pessoa que traria a visão dele para vida real". Esse é o papel principal da figurinista, tornar real a imaginação do roteirista e diretor.

Arianne disse que ficou sabendo do filme através de uma amiga e quando recebeu a ligação para marcar a entrevista ficou emocionada. Ela recebeu o roteiro, mas ao contrário do que esperava, ela não poderia escrever nenhuma anotação nas folhas. 

A figurinista leu o roteiro em aproximadamente duas horas e meia, e preparou uma apresentação extensa para a reunião com 2 albuns de fotos e colagens mostrando sua impressão visual da história. Ela colocou os álbuns em uma caixa preta com uma camisa havaiana vintage no tamanho do diretor, uma pomada para cabelo, um óculos de sol antigo que talvez Rick Dalton (um dos personagens) usaria e CDs com músicas que tocaram nas rádios dos anos 60 (Paul Revere & the Raiders,Tom Jones, Elvis Presley e Mamas and the Papas). 

"Eu fiz alguns filmes dessa época, mas eles eram do começo e do meio dos anos 60. 1969 era um enigma para nós comparado com os anos anteriores [...] Antes as pessoas costumavam cortar e lavar o cabelo, e os homens usavam pomada ou gel, mas quando entramos no final dos anos 60, os cabelos ficaram mais naturais. Ainda existiam regras de vestimenta, você tinha que usar sapatos, não podia usar jeans em restaurantes e homens tinham que usar jaquetas. E então as coisas começaram a mudar. Eu quis ter certeza de quando estivesse vestindo os personagens, até os figurantes, pudesse mostrar a mudança em Hollywood." 

A pré-produção começou em março e as gravações só começaram no final de junho e para encontrar as roupas ela foi em brechó, alugava na Western Costume e na Palace Costume (as duas na Califórnia), e também fez muitas peças do zero. Mesmo alugando, a maioria do figurino, foi feito pela própria equipe e sob supervisão de Tarantino. Arianne notou uma diferença nele comparado aos outros diretores: ele tinha segurança ao falar sobre figurino e participou das primeiras provas de roupas e sugeriu o sobretudo de Sharon que viu em uma fotografia antiga de quando ela estava viva.

O trabalho se iniciou com uma noite de filmes no cinema do diretor (além de dirigir, ele tem um espaço próprio, o New Beverly Cinema em Los Angeles) com toda a equipe para assistir algumas das produções da lista que Tarantino deu para servir de estudo. Além disso, ela também pesquisou sobre a alta moda dos anos 60 e olhou várias revistas. 

A figurinista viu as roupas antigas da atriz e teve ajuda da irmã de Sharon, Debra Tate, para consultar e saber como vestir a personagem. Ela ainda emprestou jóias da atriz para serem usadas por Margot Robbie. 

O guarda-roupa de Sharon Tate era repleto de peças de luxo assinadas por Rudi Gernreich, Jean Muir, Betsey Johnson, Courrèges e Ossie Clark (mas para o filme as peças eram no máximo da Levi’s e da Rayban, nada mais caro). A atriz ficou conhecida por seu estilo que até hoje influencia a moda. Ela adorava usar roupas simples, mas com toques requintados, e tinha um visual bem pin up com o cabelo volumoso e os olhos com as pálpebras marcadas. 

O foco das roupas não eram as marcas e a figurinista comenta: 'Esse não é um filme de moda. Moda é um reflexo da cultura, é uma reflexão do que está acontecendo em um período específico. Nós tínhamos referências históricas reais das marcas, mas o figurino veio dos personagens e de suas personalidades como Quentin escreveu no roteiro original". 

Sharon, no filme, tem um guarda-roupa bem limitado e baseado em fotos antigas da atriz. O sobretudo de cobra (usado durante a premiere do filme O Bebê de Rosemary em 1968) e o conjunto amarelo foram inspirados nas peças originais do designer inglês Ossie Clark. 

As únicas restrições que ela teve foi que na Hollywood de Tarantino era proibido o uso de franjas e tie dye, mas ele adorou o modelo curto de vestido que era usado nos anos 60. 

Os dois personagens masculinos são amigos bem próximos por terem anos de trabalho juntos, mas não tem estilos parecidos. 

Rick é básico e mais sofisticado com jaqueta de couro, blusa com gola alta, calça de alfaiataria, todos na mesma cartela de cores: marrom, laranja e mostarda. Suas jaquetas já estavam definidas no roteiro e como o diretor também participou das provas de roupa, eles escolheram as que mais combinassem no personagem, entre várias opções com silhuetas diferentes.

Cliff é mais descolado com roupas mais jovens, como calça jeans, camiseta e camisa estampada havaiana. A camisa também estava definida no roteiro e a figurinista teve que seguir a ideia, pesquisando quais cores e estampas para que as peças fossem feitas pela equipe de figurino.

Além do figurino casual, a figurinista ainda teve que vestir Rick e Cliff com roupas de faroeste por eles serem atores de Bounty Law, um programa de velho oeste em preto e branco (fictício no filme) e para isso se inspirou em atores dos anos 60 como Edd Byrnes e Steve McQueen. Em entrevista ao site Film Maker Magazine, ela disse que não foi um desafio, e sim uma oportunidade. "Para mim é como ser capaz de fazer vários filmes dentro do filme. E com as cenas pretas e brancas de Bounty Law, nós levamos os contrastes em consideração. Eu quis tons médios (como o cinza) em Rick (no programa se chama Jake Cahill) e no dublê, porque o outro personagem, Michael Madsen, usava preto e branco." 

Os hippies do filme não seguem o estereótipo de franjas, flores e peças estampadas porque a figurinista e o diretor queriam que a imagem deles fosse bem real. "Eu quis criar um figurino que fosse silencioso, para que a audiência pudesse descobrir sozinha quem eram esses personagens. Eles não tinham muito dinheiro, pegavam comida de lixeiras e provavelmente não lavavam as roupas sempre."

Era Uma Vez... em Hollywood é um filme que vale a pena a ser assistido ainda mais com todos os elementos incríveis: o figurino é sem igual, o elenco tem boas atuações já conhecidas e a direção foi feita por um dos nomes mais renomados do cinema. Se você gostou das escolhas da figurinista Arianne Phillips, não esquece de deixar um comentário pra gente saber qual é sua peça favorita dos anos 60.