The Favourite é o novo filme do diretor grego Yorgos Lanthimos (O Lagosta), que acabou de estrear no Brasil (24 de janeiro), com um triângulo amoroso um tanto quanto divertido entre as atrizes Olivia Colman (The Crown), Rachel Weisz (Oz: Mágico e Poderoso) e Emma Stone (La La Land). 

 A comédia está na boca dos críticos e conseguiu liderar o Oscar 2019 com 10 indicações, incluindo a de melhor figurino e a de melhor filme. Além disso, a figurinista Sandy Powell já garantiu dois prêmios para o filme no British Independent Film Awards e no Satellite Awards

 O roteiro se passa na Inglaterra do século XVIII, mostrando a corte da Rainha Anne e a disputa entre Lady Sarah (a conselheira política - Rachel Weisz) e Abigail Masham (Emma Stone) para ver quem fica ao lado da rainha. Enquanto uma quer manter o posto, a outra é uma criada que vê a oportunidade de subir na vida ao conquistar a atenção da Rainha. 

 O diretor contou que o filme tem uma abordagem feminista para mostrar sua visão sobre as mulheres: “Na maior parte do tempo, mulheres são vistas através da perspectiva masculina, então elas são frequentemente apresentadas como esposas, namoradas ou objetos de desejo [...] Nossa contribuição é mostrar como as mulheres são complexas, maravilhosas…são seres humanos”, disse Lanthimos.

 Além de uma ótima atuação, as atrizes contam com um visual de época feito por uma das mais renomadas figurinistas do mundo: Sandy Powell. Com 10 indicações e 3 estatuetas do Oscar na bagagem, ela ficou conhecida por suas peças únicas e cheia de detalhes, como o vestido de Cinderela (2015), com mais de 12 camadas de seda que foi produzido por 20 pessoas. Vindo dela, não podemos esperar menos do que um figurino espetacular. 

 A figurinista procurava essa colaboração por amar os filmes do diretor, como Alpes e Dente Canino, e depois de se encontrar com ele e ser contratada, ela sabia que essa experiência seria única. 

 Ela disse ao Entertainment Week (EW) que o diretor Yorgos Lanthimos não gostava de muitas pessoas no set. Com um período de cinco semanas para fazer todos os figurinos, ela se certificou de que todas as peças serviam no elenco, entregou o figurino e não ficou no set. “Na maioria das vezes eu não sabia como seria. Mesmo quando você vê as anotações diárias do diretor, não dá pra saber até que tudo esteja pronto. Houve momentos em que eu pensava que a cena era estranha e em como iria funcionar, mas quando tudo se juntasse iria fazer sentido. Ele sabe exatamente o que está fazendo. Fomos todos parte do quebra-cabeça e ele sabia como juntar todas elas”, disse Sandy Powell. 

 O diretor também queria que os homens ficassem em segundo plano, que é uma situação que acontece com as mulheres na indústria cinematográfica e a figurinista comenta que gostou dessa inversão: “Yorgos queria que as mulheres tivessem rostos e cabelos com aparência natural, ele realmente não queria que parecesse que se levantassem todos os dias e demorassem horas no cabelo e na maquiagem. Normalmente, os filmes são repletos de figurantes e temos muitos deles em A Favorita, então foi muito bom que fosse invertido dessa vez, onde as mulheres são o centro do filme e os homens são a decoração de fundo. É claro que eles são importantes, mas acho essa parte de tornar eles menos útil bem engraçada.”

 Na Inglaterra do século XVIII, as mulheres ainda não estavam no centro da vida social e quem dirá na política. Elas eram proibidas de estudar e trabalhar, mas como membros da realeza, as personagens do filme tinham a mais alta qualidade de vida, podendo até caçar e tomar as decisões políticas durante a Guerra da Rainha Ana (operações da Guerra de Sucessão Espanhola em território britânico que foi de 1702 à 1713). 

 As mulheres tinham deixado de usar corpetes com formato pontudo sob a saia e adotaram vestidos mais discretos, como o robe à volante (com tecido dos ombros à barra da parte de trás, formando um drapeado no decote), o robe a la francese (tecido descendo dos ombros à barra); e outros com a cintura levemente marcada e anágua pequena. As mangas podiam ter renda e ainda sim, algumas anáguas eram tão grandes que a mulher não conseguia passar por uma porta! 

  

 “Nós tivemos que pensar em como poderíamos deixar cada uma delas diferente, porque naquela época as mulheres usavam a mesma coisa, todas usavam vestidos elaborados”, conta a figurinista Sandy Powell à Vogue.  

 O contraste de classe das personagens é bem evidente, já que Sarah é a mão direita da Rainha Ana e Abigail ainda está tentando se aproximar para melhorar sua vida. Ao se apresentar, Abigail chega suja depois de cair na lama e suas roupas são bem simples por não ter um cargo na realeza. Os tecidos velhos e o chapéu de palha, foram evoluindo ao longo do filme e ela passa a usar roupas melhores na medida que se aproxima da rainha.

 Abigail começa com um vestido desgastado e depois que passa a trabalhar na cozinha, usa um uniforme feito em jeans como o dos outros empregados. Se você não acompanha o blog, contamos no texto de Duas Rainhas que a figurinista Alexandra Byrne também usou o mesmo tecido nas personagens pra caber no orçamento. 

 O jeans não era usado na época, mas foi usado nos corpetes, nas calças e nas jaquetas masculinas porque a figurinista disse que queria surpreender as pessoas. Ela superou suas próprias expectativas fazendo um traje de época com vários toques do punk. 

 Depois de passar por essas fases ela chega no visual elegante, usando bastante preto, e a figurinista conta que a deixou mais vulgar do que no início do filme: “Eu queria dar a ela a vulgaridade do noveau riche. Seus vestidos vão ficando um pouco mais ousados, com mais estampas e listras pretas e brancas. Eu queria que ela se destacasse de todos os outros como se ela se esforçasse mais do que os outros por essa posição social”.

 A expressão que a figurinista usou significa “novo rico”, pra mostrar uma pessoa que era de uma classe mais baixa e acabou de subir de posição, mudando seus gostos para o novo estilo de vida, como a própria personagem Abigail. 

 Sarah manteve seu estilo, sempre com a cintura marcada, anáguas para dar um leve volume e sua elegância era estampada em colares de pérolas, detalhes em renda e transparência. 

 A figurinista também escolheu calças para ela conseguir se movimentar ao andar de cavalo e caçar. “Ela é forte e eu não queria que ela ficasse muito masculina; queria que ela tivesse aparência de uma mulher independente”.

 A calça da personagem se parece com uma feita pela figurinista no filme Orlando (1992) e ela comenta que os figurinos são da mesma época, mas que não usou um como inspiração do outro.

 A Rainha Anna tinha dificuldade para andar porque ficou manca depois de contrair gota (doença) e ainda tinha depressão, o que levou a figurinista a querer que ela passasse a maior parte do filme de camisola.  “Eu queria dar liberdade a ela em sua camisola. Pessoas com depressão tendem a não se arrumar, então por que ela faria isso? É um contraste fantástico em relação a corte quando ela tem que vestir algo diferente”, disse Sandy Powell. 

 Nesses momentos em que ela se arruma, ela é o oposto das duas amantes e usa roupas bem extravagantes, com muito babado nas mangas, anáguas grandes, mangas bufantes, tecidos estampados e laços enormes.  A figurinista queria que a Rainha fosse um ícone mesmo doente e conta que nas imagens da época as roupas eram feitas com ouro e enfeitadas com jóias: “Eu tive que pensar de que outra forma eu poderia dar o ar de realeza a ela? Arminho (animal do grupo das doninhas que vivem na Europa)é associado à realeza, geralmente é usado apenas como uma decoração em pequenas quantidades, então eu decidi usar para fazer a roupa inteira dela. No resto do filme ela usa camisola e eu não tive que me preocupar em como vesti-la todos os dias.”

 

 A figurinista conseguiu equilibrar o figurino de época com traços modernos (por conta do orçamento) usando tecidos mais acessíveis de várias partes do mundo, como tecidos africanos, indianos e vinil cortado a laser, comprados em uma loja perto de sua casa em Brixton. “Eu usei tecidos que eram preto-sobre-preto ou branco-sobre-branco, então muitos tinham textura. Isso não é particularmente do período. Também não usei nenhuma renda e usei um pouco de vinil cortado a laser, que é estranho de ser usado num filme de contexto do início do século XVIII”, disse Sandy Powell ao site Entertainment Week. 

É muito bom ver como os figurinistas fazem para equilibrar o orçamento.

 Ela ainda disse que o figurino ajudou a não distrair o que realmente importa. Se ela tivesse usado brilho como em outros filmes de época, não teria ficado na concepção de moderno que os filmes de Yorgos tem. “O diálogo é bem contemporâneo e os temas também, e se o figurino fosse muito de época, teria sido uma distração. Eu não queria que nada atrapalhasse a história, queria que as pessoas vissem a intriga, a conspiração e a política”. 

 Sandy Powell consegue explicar muito bem todo o processo criativo que ela teve pra esse filme e qual foi o papel do figurino nele, que era não aparecer muito pra não atrapalhar a história que o diretor queria contar. Ele é um grande concorrente ao Oscar de Melhor Figurino sem dúvida. Será que ganha?