Tirando o foco dos indicados ao Oscar e continuando na onda dos filmes de época, Colette estreou em outubro de 2018 aqui no Brasil e nós vamos dar o destaque que ele merece! O filme é baseado em fatos reais, onde Keira Knightley dá vida a Colette, autora francesa que viveu um relacionamento abusivo em que era forçada a escrever livros para o marido, sem levar os créditos. 

 Por volta de 1900, Sidonie-Gabrielle Colette estava casada aos 20 anos com Henry Gauthier-Villars, conhecido como Willy (nome fictício de assinatura dos livros), que era 15 anos mais velho do que ela. Ele deu a oportunidade dela se expressar escrevendo a série de livros Claudine, que contava sobre sua época na escola e sua paixão por mulheres. Para uma mulher, ter a chance de escrever um livro nesse tempo, era uma oportunidade que ela não deixaria passar. 

Fontes dizem que o marido a trancava no quarto para que ela escrevesse, cena incluída no filme, como pode ser visto no trailer. Mas não pense que Colette iria ficar pra sempre em segundo plano. Ela lutou para ter a autoria dos livros, se divorciou, seguiu sua vida escrevendo e atuando no teatro. 

 Com o fim do casamento, ela estava livre e pode mostrar sua bissexualidade (num século em que a homofobia era bem maior), se relacionando com a artista andrógina Mathilde de Belobeuf, chamada de "Missy". 

 No fim de sua vida ela já tinha se casado 3 vezes, foi a primeira autora a participar da Academia Goncourt (sociedade literária que organiza prêmios na França), foi indicada ao Prêmio Nobel em literatura e escreveu livros de sucesso (a obra Gigi virou uma peça musical estrelada por Audrey Hepburn, um filme em 1948 e mais um musical em 1958). Ela faleceu em 1954 e foi a primeira mulher a ter um funeral de Estado francês, mesmo sem a aprovação da igreja. 

 O elenco muito bem selecionado conta com Keira Knightley (Piratas do Caribe), Dominic West (A Escuta), Eleanor Tomlinson (Poldark), Denise Gough (Robin Hood) e Aiysha Hart (Poderia Me Perdoar?). O filme já recebe elogios pela atuação de Keira, a atriz está sempre estrelando algum filme de época, como Orgulho e Preconceito (2005) e Anna Karenina (2012).

 Recentemente Keira Knightley falou para a Variety o porquê de fazer tantos filmes desse estilo: “Eu não faço filmes ambientados no presente porque as mulheres são quase sempre estupradas, acho desrespeitosa a forma como as mulheres são mostradas, por isso prefiro obras de época e personagens históricos”, disse na entrevista.  

 Knightley é uma das atrizes de Hollywood que apoia os movimentos #MeToo e Time’s Up, iniciativas para combater casos de violência sexual e discriminação contra as mulheres na indústria cinematográfica. Ela contou ao LA Times sua opinião sobre o papel da mulher na sociedade de hoje e disse: "As mulheres sentem vergonha e acham que devemos esconder partes da nossa personalidade que não são tão femininas. E com Colette, ela simplesmente disse: é isso que eu sou e eu amo isso".  

 

Olhando para a personagem já dá para notar que o figurino não segue a linha das clássicas roupas de época, com os corsets e chapéus com pena, flores ou laços. Colette vai na direção oposta graças ao trabalho da figurinista húngara Andrea Flesch (O Duque de Burgundy), que não é tão famosa, mas não por isso deixou de realizar um trabalho muito bem feito neste filme que é uma boa referência de História da Moda através do figurino.

  A época do filme era a  Belle Époque - período entre 1890 a 1914 na França em que a moda era um divisor de classe social, as pessoas eram facilmente distinguidas pelo que usavam, já que o luxo era marcado por chapéus com plumas, flores e muito bordado nas roupas extravagantes, enquanto as roupas mais simples não passavam de babados e tinham pouca estampa. As mulheres usavam saias mais estreitas (dependendo de quanto as saias eram apertadas, elas mal conseguiam andar, eram só 8 cm por passo!) e corsets apertando bem os quadris formando um S, para dar volume ao busto. 

 Com a entrada das mulheres no mercado de trabalho, os vestidos não eram a melhor opção e as peças com corte masculino começaram a ser usadas, como o tailleur (saia justa e longa com casaco). 

 A figurinista disse à Variety que conversou com o diretor Wash Westmoreland antes de iniciar seu trabalho para os dois definirem o que eles queriam do filme e da personagem. E para ela o que torna Colette especial é seu jeito de ser moderna com um guarda-roupa que reflete sua independência, sensibilidade, personalidade única e quebra as regras da moda do período.  

 Para começar os trabalhos, a figurinista disse a Topshop que olhou muitas pinturas da época para se familiarizar porque era a primeira vez que trabalhava com esse período e também viu vídeos e fotos de Colette na vida real para poder se inspirar.  Em sua pesquisa, Andrea olhou a moda da época, fotografias e pinturas de Fernand Toussaint, Édouard Vuillard e Jean-Georges Béraud. Ela contou que muitos dos vestidos usados ​​no filme tinham décadas e tiveram que ser restaurados no Museu de Artes Aplicadas da Hungria. 

 Andrea ficou um ano pesquisando para encontrar roupas reais, já que ela prefere usar tecidos originais: "Os tecidos modernos simplesmente não têm mais esse sentimento de parecer quase como pinturas.". 

  Ela ainda disse que passava a noite procurando na Internet técnicas de reconstrução para consertar as peças e também buscava acessórios para disfarçar e cobrir as imperfeições, porque mesmo sem um close nessas partes mais velhas, ela sabia que eram detalhes que importavam. 

Em figurino os detalhes realmente importam, deixam mais ricas as roupas e ajudam a contar a história da personagem, juntando isso à necessidade de esconder pequenas imperfeições a figurinista se utilizou de broches em Colette: um de pássaro em um vestido branco para simbolizar o amor; um de galo para remeter às suas raízes do interior do país e suas dúvidas sobre sua nova vida em Paris; e um de bulldog para lembrar o cachorro Toby Chien (era de Colette e seu marido Willy).

  A paleta de cores de Colette era simples com amarelo, cinza, marrom, preto e branco. A figurinista disse que é importante harmonizar cenário com figurino, e um exemplo é a cena que Colette está perto de uma parede colorida e ela escolheu colocar mais detalhes de dourado: “Foi divertido brincar com pequenos detalhes, como o chapéu dela combinando com a cor da parede em um café”.  As cores das roupas mudam de acordo com passagem do campo para a cidade grande, e a figurinista disse à Marie Claire que escolheu cores mais alegres quando ela ainda está apaixonada por Willy e cores mais frias depois de ir para Paris. 

Como dá pra notar o arco do personagem, ou seja, a jornada interior de Colette ao longo da história foi contada através dos figurinos que ela usou.

Cores claras e flores no começo do filme, que simboliza a ingenuidade, pureza e romantismo, e depois ela vai se tornando moderna com escolha de cortes mais estruturados e cores mais frias, terminando com um visual mais rebelde com cabelo curto (detalhe que se completa com o lápis de olho bem marcado em uma das cenas finais do filme) e usando terno.  

O diretor Westmoreland disse para o NY Times: "Em Paris naquela época, uma mulher poderia ser presa por usar calças. Isso desafia a convenção, e é uma espécie de declaração estranha que ela está saindo das normas femininas convencionais".

 Colette passou a usar mais calças quando estava namorando Missy: “Ela era diferente, era escandalosa e era aceita porque era rica. Colette queria mostrar que ela estava no mesmo nível e chocar mais ainda”, disse a figurinista para o The Guardian.

decisão de não usar espartilho veio do diretor e da atriz Keira Knightley e a figurinista disse que foi uma boa ideia para ela ter liberdade de movimento, e também porque a atriz já fez filmes de época e sabia o que ficava melhor nela. 

Olha como o figurino é construído com idéias não só da figurinista, mas também do diretor e do ator/atriz. Essa troca contribui muito para que o resultado na tela seja um sucesso. Por isso é importante o figurinista escutar os profissionais da equipe.

 O diretor pediu que ela fizesse o figurino de todos os personagens, incluindo os figurantes, e para ela foi a chance de dar vida a uma época inteira: “Wash (diretor) me deu a oportunidade de criar muitas roupas para vários personagens incríveis do roteiro”, disse Andrea. Mais de 100 peças foram compradas ao redor do mundo, como as de Willy (marido de Colette), ele precisou de 38 trocas de roupa para mostrar a mudança de personalidade e física.

Alguns figurinos são recriações e a figurinista conta que esse também foi um desafio: “Tive alguns desafios como o vestido amarelo que era pra ela usar no interior e depois em uma festa em Paris (ela achou em uma loja de aluguel nos EUA), e foi difícil achar um vestido que servisse para as duas ocasiões. "Também tive que criar um vestido egípcio para a cena do teatro e foi complicado porque ela tinha que conseguir dançar com ele"disse à Topshop.  

 A figurinista disse que se lembra de Coco Chanel ao olhar para a personagem porque Coco foi a primeira designer a rejeitar os corsets e valorizar o conforto: “Eu senti uma conexão entre as duas, elas tem o mesmo jeito de pensar e encarar a vida, sem estereótipos e prezam pelo conforto. Elas têm até a mesma flor (gardênias brancas) e Colette era a escritora favorita de Chanel”. 

 O filme foi planejado por 15 anos pelo diretor e seu falecido marido (assistindo o filme dá pra perceber que ele foi bem planejado), com um roteiro que traz uma crítica atual, mostrando que a mulheres ainda lutam por igualdade e se sentem representada por obras de empoderamento como Colette.

 A figurinista disse que se esse fosse seu último trabalho ela ficaria muito feliz porque o resultado a deixou muito feliz. Realmente Andrea Flesch fez um excelente trabalho de figurino, se ela não falasse que era seu primeiro trabalho com a Belle Epoque, não daria para perceber. 

E são filmes como esse que precisamos indicar a vocês, sobre mulheres importantes na história, como Colette que foi uma das primeiras escritoras reconhecidas e uma das mulheres com mais visibilidade na França. Deixamos a indicação de filme e queremos que você conte nos comentários o que você achou sobre o figurino: se você fosse a figurinista, escolheria usar corset ou não? 

O filme Colette está disponível no Prime Video. 

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